sábado, 7 de novembro de 2009

O GRANDE EVENTO

O GRANDE EVENTO




Todas as celebridades chegavam bem vestidas. Os convites tinham sido espalhados pelos quatro cantos do mundo. As agências de aluguel de “limusines”, pois eram poucas as que existiam naquele pequeno país asiático, estavam com algumas centenas de candidatos na lista de espera, na esperança de ainda chegar ao MEGA SHOW, dignamente como manda a tradição dos milionários.



Um palco imenso estava preparado, podia-se ver que a noite prometia. Entardecia, e fazia um pouco de frio, até que o céu se tornou todo cinzento e começou a cair os pequenos flocos de neve, muito delicados, e a multidão continuava a chegar algumas “madames” em seus casacos caríssimos, outros “gentlemen” se apertando e contendo a respiração para não arrebentar os botões da camisa.



A mídia estava toda lá, milhares de emissoras de televisão, rádio, e até comunicação intergaláctica lá estavam. Esperavam por este grande evento já muito tempo.



A multidão parou de entrar, os portões foram encerrados e teve inicio o grande show.

O que se ouviu em uníssono foi o Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! Da multidão, que curiosa, aguardava voraz o que consumiria suas exigências excêntricas em matéria de diversão.



A música fúnebre começou a tocar, bailarinos começaram a bailar uma estranha ária de compositor clássico desconhecido. Com suas roupas negras, às vezes rasgadas, em frangalhos, contrastavam com o vestuário dos presentes. O jogo de luzes, ora brilhante, focando, os movimentos mágicos do bailado, ora turvo, fazendo a multidão imaginar o que ocorria...



Nas mensagens subliminares apareciam nos quatro grandes telões todas as vantagens de adquirir uma parte do grande empreendimento. Fascinante... Salões esportivos, cobertos e descobertos, um conjunto de piscinas, jardins suspensos, um mini shopping, com boutiques para todos os gostos, lojas de aluguel de roupas para ocasiões especiais, uma empresa encarregada de produzir sua festa, onde você não precisaria fazer nada, apenas pagar e assistir, fantástico. Uma pista para pouso de jatinhos, aeronaves pequenas e helicópteros, uma marina, alguns iates e um navio turístico imenso. Tudo muito perfeito, maravilhoso. O preço não foi revelado. Ao final do espetáculo, todas as celebridades receberam um aceno de muito obrigado, uma verdadeira curvatura, própria dos habitantes daquele pequeno país asiático. E à medida que iam se retirando recebiam um envelope que continha um cartão eletrônico com o nome gravado a ouro, uma cartinha, e uma senha.



Não sei quantos adquiriram uma parte no grande empreendimento. Eu saí horrorizada, pois era apenas uma das muitas tradutoras. E o que ouvi foi chocante que não ouso repetir.



O empreendimento “ETERNAL PARADISE” deve ter tido muito sucesso. Voltei para meu país de terceiro mundo e estou feliz de não ter tanto dinheiro para comprar o que ainda não sei se estou preparada para enfrentar. Um espaço num cemitério virtual. A idéia é luxuosa, economiza espaço, você mata saudades quantas vezes quiserem, pois pode assistir ao vídeo do funeral da cremação e tem todo aquele glamour de grande evento, imagine até sauna, existe para relaxar durante o velório, não é bem sauna, mas não sei falar aquele nome estranho que eles dão para uma tina de madeira com água quente que quase arranca a sua pele, Ah, quase ia esquecendo, quem parte, descansa, mas quem fica arrepiado de horror, encontra umas meninas bem alegres ou uns companheiros elegantes que fazem uma magia extrema e te levam aos píncaros do prazer de viver. Deixa para lá,



Não posso te contar todos os segredos, daí que você vai deixar de querer conhecer. Eu não gostei porque além de (I can’t afford), já fui queimada viva uma vida lá atrás e não gostei do cheiro de churrasco de carne humana.



O sol está brilhando lá fora e meu ar condicionado já não está dando conta, vou chamar meu protetor solar espalhar, ele pelo meu corpicho de meio baleia/sereia e cair na piscina lá no parque aquático do condomínio onde estou hospedada. O que vocês pensaram? é uma suíte de luxo sim, mas não sou tia de programa. Não se esqueçam estou trabalhando, estou traduzindo para um grupo de pequenos asiáticos, (não espalhem colecionadores de antiguidades, na verdade comerciantes de pedras preciosas). A única coisa que lamento aqui neste flat é que não tem meu “drink preferido” de star internacional, o meu costumeiro “blood Mary”. Na falta, atravesso a rua,vou no trailer em frente a praia e peço uma água de coco cheia de cachaça da boa. Tem um deles que fornece até Ipioca.









Aradia Rhianon

A CARA DO CARA

(Poema para ser declamado no ritmo de Rap)




A cara do cara



Não dá para acreditar,

Mas tenho que falar.

Chega! Deste rola, rola

Lero-lero

E muito blá, blá, blá

Tudo acontece

E o homem estala



Agora não adianta

Dizer eu não quero

Aposenta os sonhos

Na mocidade

E mata em ti

Qualquer vontade



Somos mortos-vivos

Pelas cidades

Chega! Tanta baboseira!

Tanta discussão,

Tudo acaba em União.



É tudo sempre em vão.

Vê se faz qualquer coisa

Meu irmão

Pois não está dando

Para segurar não

E o homem está lá.



Depois, é sempre

A mesma coisa

Rola, rola lero-lero

E muito blá, blá, blá

A máquina funciona

Como rolo compressor



Por onde passa

Tudo vai comprimindo

As verdes matas destruindo

E o povão engolindo

Muito comprimido para dor



Não tem açalpão nem ratoeira

Não tem prisão e nem justiça

É um bando de pássaros livres

E um monte de ratos soltos

Que vivem a nos dar rasteira



Não dá para falar

Tamanha a emoção

Tristeza, dor, desilusão

Viver quase sem opção

Já mudei até o nome do deus



Para chegar lá

Minha triste oração

Eu canto um RAP para Alá

Vê se pode me escutar

E o cara ainda está lá.



Aqui não dá mais

Os trabalhadores honestos

São os otários pagãos

Os infelizes imbecis

Que vivem sob a mira dos fuzis.



Está difícil até de sair

No trabalho chegar, então

Os ônibus são queimados,

Os trens superlotados

Também são incendiados



Os bobocas ficam presos

Na estação sem informação

Como se fossem presidiários

Esperando a condenação

Assim meio tipo:



Gado na fila indo

Para a estação Matadouro

Escutei dentro do vagão

Que era exclusivo feminino

- Cala a boca mulherão.



Quer sair dos trilhos

Se não andar na linha

Vai comer formiga

Vou te tornar presunto

Apodrecer com os pés juntos



Jogo-te em qualquer lixão.

No solavanco do trem

Não teve para ninguém

Saí correndo para o último

Vagão lá toda encolhidinha



Desci discretamente

Sempre com minha sombrinha

Nunca se sabe a hora

De revidar pode ser agora

A trovoada já está a roncar



É difícil acreditar

Mas ele continua lá

Nem prece para Alá

Só continua o eterno

Toma de lá, dá cá



O cara continua lá

Até quando não sei

Eu mal sei ler

Nem sei escrever

Não entendo de lei



Só conheço a de Deus

Que para nós há muito

Já acenou adeus

Isto é um pesadelo

Ou fui morta por uma bala



Estou no céu ou no inferno?

Não estou sonhando com

Os anjos no paraíso

Ouço a voz da patroa

Gritando acorda, acorda



Bebeu muita água do Barril

Calei o grito na garganta

De ódio de voltar a terra

Da desesperança

Vida triste de governanta



De pobre é claro

Vou deixar de ser imbecil

Aprender a ler

E então quem sabe

Ordem e Progresso



Não sejam apenas as palavras

Da bandeira de um povo

Que trabalha labuta trabalha

E cansado de tanto trabalho

Dorme de barriga vazia



Meu grito vai ecoar

Do Oiapoque ao Chuí

Acorda Brasil!

Não é com armas nem fuzis,

Que vamos mudar

Precisamos mais educação,

Mais trabalho, mais união.

Para o brilho desta nação

Alcançar a abundância em profusão.

E viver livre do estigma,



De país sem solução.

E então não seremos gado,

Indo para a estação Matadouro

Amassados no trem,

Nessa desastrosa viagem.